Dia da Visibilidade Trans: baianas transexuais buscam fonte de renda no empreendedorismo
29 de Janeiro de 2024 - Redação Pernambués agora
Feira de empreendedorismo de pessoas trans reuniu mais de 15 mil visitantes em Salvador neste mês / Foto Arquivo Pessoal
Oito em cada dez pessoas transexuais estão fora do mercado de trabalho, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Preconceito, violência e, consequentemente, falta de acesso à educação formal são alguns dos motivos que provocam essa exclusão. Apenas 0,02% das pessoas trans têm acesso a uma universidade no país. Segundo a Antra, a maior parte delas abandona os estudos por volta dos 13 anos.
Com os obstáculos à garantia de renda formal, cerca de 90% das pessoas trans passam pela prostituição como forma de subsistência, de acordo com a presidente e criadora da Antra, Keila Simpson, que faz parte da estatística. “Fui prostituta por muito tempo e continuo sendo. Eu gosto muito de me afirmar como, porque é o que eu sou e é o que eu fui na minha vida o tempo todo”, afirma, destacando o orgulho da comunidade neste 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.
Representante da comunidade, ela aponta que algumas pessoas do grupo têm apostado em outro caminho para garantir a renda: o empreendedorismo. Ainda que seja uma minoria, o número de pessoas trans que migraram para esse setor tem crescido entre quem não consegue adentrar o mercado de trabalho formal, inclusive na Bahia. É o caso da cabeleireira e empresária Razal Cerqueira, que tem um salão de beleza em Salvador.
Razal sonha em aumentar o espaço, mas sofre com os altos custos para essa expansão. Antes do empreendimento, ela já havia trabalhado como promotora de eventos, consultora financeira e vendedora, mas nunca desistiu do sonho de ter o próprio negócio. “Aconselharia outras pessoas trans que desejam empreender a fazer aquilo que amam e acreditar em si mesmo, independente das críticas, pois elas estão em todas as áreas e em todos os setores”.
FEIRA TRANS MIX
Já a empreendedora Brenda dos Santos de Souza sempre teve o objetivo de impactar positivamente a população soteropolitana com o intuito de trazer visibilidade e oportunidade de renda para pessoas LGBTRANS+. Em 2023, realizou o sonho dela e criou o projeto “Feira Trans Mix”, um evento onde cada participante pode expor o próprio negócio.
A empreendedora explica que essa foi a alternativa que pensou “para voltar a sonhar, e outras pessoas também”. Na primeira edição da feira, no ano passado, 11 pessoas trans empreendedoras compartilharam as suas vivências no mercado de trabalho para um público que chegou a nove mil pessoas. Já na última edição, que aconteceu no dia 20 de janeiro, no Centro Histórico de Salvador, a feira recebeu mais de 15 mil visitantes.
“Em diversos espaços, não somos bem-vindes, e muitas pessoas nos negam oportunidades, evitam nos contratar e se relacionar com a gente, simplesmente por ser quem somos”, diz Brenda. Por isso, a criadora do evento afirma que a Feira Trans Mix é uma possibilidade de renda e de emancipação das pessoas trans de dinâmicas sociais que ela chama de “desumanizadoras”. “Pessoas trans merecerem viver plenamente”, afirma.
VIOLÊNCIA
O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, de acordo com pesquisa da Antra com apoio de universidades como a Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Federal de São Paulo (Unifesp) e Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2022, a Bahia foi o segundo estado com a maior taxa de homicídios, com 13 mortes. A lista é liderada com São Paulo, com 25 assassinatos.
Keila aborda também a violência no ambiente escolar. “Nós falamos de uma população que foi expulsa da escola muito cedo. A escola as expulsou com toda a sua violência e com todo seu bullying. É mais difícil buscar a formalidade do trabalho sem essa formação e é muito mais difícil ficar dentro de uma cadeia de empregabilidade”, explica.
Confrontando essa realidade, o Supremo Tribunal Federal equiparou a transfobia ao crime de racismo em 2019, transformando esse ato discriminatório em inafiançável e imprescritível. Mulheres transgênero e transexuais também podem contar com o auxílio da Lei Maria da Penha. De acordo com a Antra, de 131 pessoas trans assassinadas no Brasil em 2022, 130 foram mulheres trans ou travestis.
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