O racismo e a pandemia; uma análise por recorte
27 de Abril de 2021 - Luiz Carlos Suíca
Para além do dinheiro, a cor da pele é o fator mais preponderante para o risco de perder a vida por causa do Sars-CoV-2, a famigerada ‘covid-19’, doença respiratória causada pelo novo coronavírus e que matou quase 400 mil em um ano de pandemia no Brasil
Por Luiz Carlos Suíca*
E não precisa ser especialista para identificar que os mais atingidos são os pobres. Para ter um recorte racial dessa pandemia no país, entre pretos e pardos as taxas de mortalidade são 81% e 45%, respectivamente, mais altas que as de pessoas brancas na capital do estado de São Paulo.
Esses dados foram divulgados o estudo ‘Social Inequalities and Covid-19 Mortality in the City of São Paulo [Desigualdades sociais e mortalidade Covid-19 na cidade de São Paulo], que analisou as mortes ocorridas na capital paulista entre março e setembro de 2020. Esse estudo abriu um debate interno no Núcleo Popular, grupo do PT que faço parte, e fez alguns militantes a buscarem dados da Bahia, onde também temos um cenário bem parecido. Dos 885.855 casos confirmados desde o início da pandemia em nosso estado, 852.616 venceram a doença, mas 18.087 tiveram óbito confirmado.
O número total de óbitos representa uma letalidade de 2,04%, conforme média de boletim divulgado pela Secretária de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). E os números detalhados mostram que foram 55,43% das mortes do sexo masculino e 44,57% no sexo feminino. Já em relação ao quesito raça e cor, 54,69% corresponderam a parda, seguidos por branca com 21,86%, preta com 15,40%, amarela com 0,45%, indígena com 0,13% e não há informação em 7,46% dos óbitos. O percentual de casos com comorbidade foi de 65,02%, com maior percentual de doenças cardíacas e crônicas (73,62%).
Logo, a maioria dos mortos na Bahia são negros, pardos e povos tradicionais. As negociações políticas e institucionais para tratar, por exemplo, a inclusão dos trabalhadores e trabalhadoras da limpeza urbana, apontou que essa desigualdade é reforçada por decisões de quem está no comando das pastas de Saúde. O que vimos no município de Salvador e no estado da Bahia como um todo foi uma morosidade para se resolver essa questão, que precisou parar na imprensa e nos debates de instituições representativas. O que fez o nosso mandato e grupo político, questionar se o racismo estrutural e institucional estava sendo cometido neste processo.
Outro ponto que o estudo sobre a capital de São Paulo trouxe para os nossos questionamentos e angústias foi fato do maior número de mortes ocorridas por covid-19 entre março e setembro de 2020, mostra a baixa escolaridade e pessoas que trabalham na rua, que precisam pegar transportes. Isso também aconteceu aqui em Salvador. Em todos os setores, somente este ano já morreram mais garis e margaridas que o ano passado todo por covid-19 e perdi inúmeros amigos para essa doença, todos na linha de frente, lutando contra a crise. Morreram também mais taxistas, mais rodoviários, mais trabalhadores de saúde.
E uma premissa que levou muitas pessoas a pensarem que a covid-19 seria uma doença democrática, que atingiria da mesma forma todas as raças, classes e gêneros, é falsa. Essa ilusão não é rapidamente desvendada pelos números da pandemia, que escancararam ainda mais a desigualdade que temos no nosso país. De acordo com o estudo de São Paulo, conforme diminuem os indicadores socioeconômicos, como o acesso à educação e a renda, aumentam os riscos de morte por covid-19. E ainda tem gente que acredita que os indicadores socioeconômicos, o modo de moradia das pessoas, o que elas comem, o que bebem e como vivem não influenciam nas mortes por covid-19.
Está, aí, mais uma premissa que nos leva a crer que a solução urgente e viável é o ‘lockdown’, fechar tudo mesmo, com apoio do governo federal, bancando tudo, isso mesmo, bancando tudo para as famílias pobres. Taxando os ricos e aumentando os investimentos em saúde e educação, congelados por 20 anos pelo governo intervencionista de Michel Temer com apoio de Eduardo Cunha. Então, não me venham querer justificar que não tem vacina para os garis e margaridas porque nós sabemos que não é verdade, afinal, prioridade é prioridade. Precisamos erradicar o racismo que tem nessas instituições e que não respeitam a história e a vida dos trabalhadores e trabalhadoras.
*Luiz Carlos Suíca é historiador e vereador do PT de Salvador
Comentários
Outras Notícias
Bahia registra mais de 170 mil acidentes com animais peçonhentos em cinco anos
18 de Agosto de 2026Foto aprimorada com uso de IA (Gemini): Jailton Farias/Giro Ipiaú
Terceirizados da Creta na Uesb de Vitória da Conquista chegam ao quinto dia de paralisação
17 de Agosto de 2026Cinco dias de paralisação na Uesb de Vitória da Conquista | FOTO: Divulgação |
Sistema de reconhecimento facial da Bahia ultrapassa marca de 6,1 mil prisões
17 de Agosto de 2026Fotos: Denisse Salazar/GOVBA
Simaria confirma retorno aos palcos com gravação de primeiro projeto solo
17 de Agosto de 2026Foto: Instagram
TSE determina remoção de vídeo que associa Lula ao PCC e ao CV
16 de Agosto de 2026Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Inscrição para vestibular da Fuvest começa nesta segunda-feira
16 de Agosto de 2026Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo
Vídeos
Vídeo: Bolsonaro dá chilique em entrevista após TSE decretar sua inelegibilidade por 8 anos
30 de Junho de 2023
Motociclista entra em contramão e bate de frente com outra moto no interior da Bahia; veja o...
28 de Fevereiro de 2023